Do Frio da Noruegua para as Trilhas de Cajamar: Jannicken, a Última Mulher de Pé n'A Lenda
Especialista em montanhas e vice-campeã da La Misión 110k, Jannicken Hoftun estreou na Backyard Ultra e tornou-se a Last Woman Standing do percurso mais técnico do Brasil.
A Força das Montanhas na Backyard de Cajamar
Residente em Holambra (SP), a norueguesa Jannicken Hoftun Versori, de 36 anos, acumula um histórico impressionante no trail running e em ultramaratonas de montanha. Com vitórias de expressão — como o título de grande campeã geral (entre homens e mulheres) do Pico das Cabras (43K), seu currículo conta com provas severas de 80K, a clássica Mizuno Uphill (42K) e desafios de endurance no frio de Oslo.
Com uma leitura de terreno apurada em pisos técnicos, subidas íngremes e altimetrias acumuladas, Jannicken decidiu encarar a A Lenda Backyard Ultra, em Cajamar, atraída exatamente pela complexidade do percurso. Mesmo sem familiaridade prévia com todas as nuances de regulamento da modalidade — como a ausência de divisão de gênero na classificação final, ela impôs seu ritmo cadenciado volta após volta.
Enfrentando a transição do calor para a noite fechada no single track, a atleta colocou toda a sua bagagem de montanha à prova para se consolidar como a última mulher de pé (Last Woman Standing) no percurso mais desafiador do país.
Entrevista Exclusiva com Jannicken Hoftun
1) No trail run, você dita o seu ritmo contínuo, administra as paradas nos pontos de apoio quando quer e embala na montanha. Como foi adaptar a mente para a dinâmica da Backyard, onde você é obrigada a parar e recomeçar do zero a cada 60 minutos?
Jannicken: Bom dia! Essa foi minha primeira Backyard. Eu não conhecia muito bem o conceito. Escutei sobre ele em um podcast há algum tempo, achei interessante e, quando encontrei a Backyard A Lenda, achei ainda mais legal, principalmente porque gosto de trilha e de subida.
Foi demais a prova, muito, muito legal! Gostei bastante desse conceito de Backyard Ultra. Normalmente, quando participo de corridas e ultramaratonas, vou seguindo e parando o mínimo possível. Na Backyard, você é obrigado a parar um pouco e, com isso, acaba facilitando a alimentação durante a prova e permitindo manter um ritmo um pouco mais alto durante a corrida (ou pelo menos enquanto o corpo aguenta, hehe).
Eu não senti nenhuma desvantagem em ficar uns 10–15 minutos descansando antes de começar a próxima volta. Foi bom poder descansar um pouco durante a corrida, sem peso na consciência.
2) Quando você deu a primeira volta em Cajamar, a sua reação foi "estou em casa" ou você percebeu de cara que aquele percurso cobraria um preço diferente a cada volta?
Jannicken: Eu estava bem curiosa antes de fazer a primeira volta, porque não conhecia o percurso. E também porque ver a altimetria no papel é diferente de sentir o terreno de verdade, né?
Fiz a primeira volta e, nossa, eu amei! Gostei demais. Eu amo trilhas. A subida lá foi bem legal, tinha bastante elevação mesmo, até um pouco mais do que eu achei que teria. A vista era muito bonita e tinha umas partes bem técnicas.
Então, depois da primeira volta, eu me senti em casa. Fiquei ainda mais animada para continuar.
3) No trail run, a gente escolhe onde arriscar nas descidas para ganhar tempo. N'A Lenda, com o piso escorregadio no dia da prova, como você dosou a agressividade nas descidas técnicas para não desgastar a musculatura precocemente?
Jannicken: Então, eu sou muito ruim nas descidas. Fui bem de boa, principalmente nas partes mais técnicas, por medo de cair. E também tinha algumas partes que estavam bem escorregadias.
4) Na Backyard Ultra não existe separação de ritmo por gênero: todo mundo corre contra o mesmo relógio no mesmo percurso. Como foi para você ver a arena esvaziando e se consolidar como a última mulher no alinhamento de largada?
Jannicken: Então, eu não sabia que não havia separação por gênero. Eu achava que era mulher contra mulher, homem contra homem. Mas, na Backyard, então, é o último a ficar em pé que ganha, né? Eu nem sabia disso! Só descobri depois da prova, hehe..
Era só eu e mais três mulheres. Elas aguentaram bem também! Eu achei legal essa parte da modalidade Backyard Ultra, em que vai ficando cada vez menos gente na largada. Aí vai ficando escuro... Tem um certo charme.
5) O percurso com mais de 220m D+ por volta exige demais do quadríceps e dos estabilizadores do quadril, especialmente nas descidas. Sua experiência no trail te deu atalhos mentais para administrar essa dor ou Cajamar apresentou um tipo de cansaço novo?
Jannicken: Não, não senti nenhuma dor diferente do que sinto nas minhas outras corridas de trilha. Acho que foi igual. Com o passar do tempo, o corpo vai ficando mais cansado e você começa a sentir um pouquinho mais as pernas. Geralmente, a descida é pior, né? Mas não foi diferente das outras provas que eu faço, não.
6) Para as mulheres, a gestão de vestuário, atrito e higiene no apoio da Backyard é um desafio à parte. Qual foi o seu segredo para se manter confortável volta após volta?
Jannicken: Então, uma coisa que eu estou achando difícil é que tem muitas coisas que a gente não consegue testar direito antes da prova, né? Nos meus treinos, é difícil fazer longões muito longos; geralmente, eu faço no máximo uns 35 quilômetros. Quando faço ultramaratona, ou agora uma Backyard, fico 10, 15, às vezes 20 horas ou mais correndo, né?
Às vezes, tem alguma coisa que funciona bem por três ou quatro horas, mas, quando você vai ficar mais de 10 horas nas trilhas, acaba não funcionando tão bem. Então, eu meio que estou testando coisas toda vez que faço uma corrida. Penso: “Ah, isso não funcionou”, e aí vou mudando, sabe?
Este ano, comprei um shorts da Vimm que não precisa usar calcinha, e ajudou bastante, porque você tem uma camada a menos para causar atrito, né. Já testei no La Misión e agora na Backyard também. Funcionou super bem. Eu também passo Bepantol e não tive problema de atrito em nenhum lugar.
O único ponto que eu ainda não consegui acertar são os pés. Não sei se tem como evitar completamente também, mas eu sempre fico com bolhas. Meu pé é meio largo e, na lateral do dedão, sempre acabam aparecendo bolhas.
Estou tentando passar uma fita, mas ela fica soltando. Dessa vez, comprei um spray adesivo para ajudar a colar a fita. Aí, dessa vez, a fita não soltou, só que, mesmo assim, tive bolha.
Se alguém tiver alguma dica para mim, eu aceito! Talvez eu precise trocar para outro tênis de trail, com uma forma mais larga para o pé, não sei.
7) Correr esse percurso durante o dia já exige atenção total; de noite, sob a luz da lanterna, as pedras e raízes mudam de dimensão. Como foi a transição para a noite no trecho mais travado da prova?
Jannicken: Ah, eu acho que as descidas foram muito piores no escuro. Principalmente essas descidas mais técnicas, que eu já acho difíceis. No escuro, nossa, é pior ainda! Porque você não enxerga direito e, mesmo com a lanterna de cabeça ligada, dá um pouco mais de medo nas descidas. Fora o fato de que, quando estava escuro, a gente já estava há muitas horas correndo, né? Então o corpo também já estava um pouco travado. Corpo cansado, pouca visibilidade... fica difícil.
8) Durante a subida, o percurso possui poucas ou quase nenhuma sombra, exigindo mais tempo debaixo do sol que estava forte durante o início da prova. Como você trabalhou o controle térmico do corpo para não 'cozinhar' nesse trecho?
Jannicken: Essa parte do calor é a mais difícil para essa norueguesa aqui, viu? Porque eu não gosto de calor. Eu gosto de frio, prefiro temperaturas abaixo de zero, neve, gelo... mas isso não tem aqui, né?
Então, geralmente, eu evito fazer provas quando está muito quente, mas essa prova parecia ser tão legal que eu não podia deixar de participar. Aí não tem muito o que fazer, né? Coloquei uma camiseta bem leve, passei protetor solar e fui embora.
Fiquei só esperando a hora de o sol baixar e começar a escurecer, porque o sol daquele dia estava difícil, viu?
9) Acredito que todo corredor tem um diálogo interno quando a prova fica pesada. O que você dizia para si mesma quando o apito de 1 minuto tocava e suas pernas pediam para ficar na cadeira?
Jannicken: Ah, eu acho que, para mim, as largadas começaram a ficar mais difíceis quando fui fazer a 13ª e a 14ª volta. Aí eu comecei a gastar um pouco mais de tempo em cada volta, porque o corpo já estava cansado. Com isso, acabei tendo menos tempo para descansar antes do próximo apito.
E aí começou a bater aquela vontade de desistir, né. Só que aí estavam o Guilherme e o Douglas, que eram os últimos homens. “Não, vamos fazer mais uma volta.” “Ah, tá bom, vamos então.”
Só que, quando terminei a última volta, eu já estava meio decidida: “Ah, agora eu vou parar.” Comecei a pensar que ainda tinha que voltar dirigindo para casa, que estava escuro e que eu precisava estar bem para dirigir.
Quando cheguei da última volta, acho que cheguei justamente quando eles deram aquele primeiro apito, avisando que faltavam cinco minutos. Então, até daria para tentar fazer mais uma. Só que eu já tinha decidido que ia parar. “Tá, não vou ganhar do Guilherme e do Douglas de qualquer jeito. Agora eu vou parar.”
Aí desliguei o relógio antes que eles pudessem entrar na minha cabeça e me convencer a fazer mais uma volta.
10) Quando comparamos uma ultramaratona de trilha tradicional — onde você corre de forma contínua por dezenas de quilômetros — com o formato da Backyard em um terreno tão exigente quanto Cajamar, qual dessas duas lógicas exige mais de você fisicamente e mentalmente?
Jannicken: Então, acho que a grande diferença entre as ultramaratonas que eu faço e a Backyard é que, nas ultramaratonas, você tem um objetivo: chegar até o final, né? Então eu não penso em desistir durante a prova.
Mas, na Backyard Ultra, você vai até onde aguenta, né? Ou você vai tentando, tentando, até não conseguir chegar a tempo para a próxima largada, ou você desiste. Então acho que, com isso, na Backyard você precisa trabalhar um pouco mais a mente para continuar.
Porque, no meu caso, quando eu parei, eu tinha chegado faltando cinco minutos. Eu poderia ter feito mais uma volta. Então, dessa vez, o que me fez parar foi a minha cabeça, né? Talvez eu desse conta de fazer mais uma volta, talvez não conseguisse chegar no tempo. É difícil saber.
Mas acho que, na Backyard, você precisa trabalhar um pouquinho mais a cabeça.
11) Muitas mulheres ainda têm receio de estrear no formato Backyard. O que a sua participação n'A Lenda diria sobre essa modalidade?
Jannicken: Nossa, eu amei muito essa modalidade! Achei demais mesmo. Achei muito bom poder descansar um pouquinho entre cada volta para comer e beber.
Também acho muito legal que acaba virando meio que uma família durante a corrida, né? Todo mundo torcendo pelo outro. Mesmo que algumas pessoas sejam mais rápidas e outras mais devagar, a largada é sempre junto, né? Acaba que você conversa, bate papo, e vai criando uma conexão com as outras pessoas.
É todo mundo torcendo pelo outro, e eu achei isso muito, muito legal. Eu super recomendo! Com certeza vou fazer ano que vem e quero fazer mais também.
12) Pra finalizar, qual é a principal dica de técnica de corrida em trilha ou de preparação mental que você daria para quem quer encarar a próxima edição da Backyard Ultra mais difícil do Brasil?
Jannicken: Ah, eu acho que, quanto menos você pensa, melhor. Vai curtindo o momento, conversando, tentando comer, beber e descansar um pouco entre cada volta, quando dá tempo.
É curtir o momento, pensar o mínimo possível, deixar as pernas trabalharem e ir até onde der.